Ode ao ponto e vírgula
Peça de exaltação ao sinal mais injustiçado da língua portuguesa, temido por alunos, ignorado por apressados, amado por esta casa.
Ninguém te convida; ninguém te entende.
Vives entre o ponto, que tudo encerra,
e a vírgula, que tudo adia,
diplomata de tinta em terra em guerra.
Ó sinal de meio caminho,
nem saída, nem demora;
quando a frase pede fôlego,
tu lhe ofereces uma aurora.
O apressado te pula; o aluno te teme;
o revisor te defende em voz baixa.
E no entanto és tu quem segura,
sozinho, duas orações pela mão,
sem deixar que nenhuma caia.
Pausa que pensa; respiro com juízo;
meio caminho entre a pressa e o paraíso.
Quando a frase ameaça desabar,
chegas tu, discreto funcionário,
e pões ordem no inventário.
Que te ergam estátua em praça pública
pequena, claro; do teu tamanho,
e que embaixo se leia, em bronze honesto:
aqui descansa quem nunca descansou;
uniu o que a pressa separou.
Na pressa da conversa online,
és o tio que pede calma;
se a vírgula só respira,
tu ainda escutas a alma.
E se me faltas, tudo é pressa;
se me excessas, a frase tropeça.
Fica, discreto, entre dois pensamentos:
nem adeus completo, nem promessa.
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