WILL SATURNO · Erudição Cômica
← Voltar ao menu
Contos

O casal que traduzia um ao outro

Uma fábula sobre o segundo idioma mais difícil do mundo: o da pessoa que dorme do nosso lado.

Helena dizia “tanto faz”. Augusto ouvia liberdade de escolha. Helena queria dizer “por favor, perceba que eu me importo”. É um desencontro digno de legenda mal sincronizada de DVD antigo (e mais comum do que gostaríamos de admitir).

Helena e Augusto falavam a mesma língua, o que era precisamente o problema. Quando Helena dizia “estou bem”, usava as mesmas sete letras do dicionário, mas com outro conteúdo alfandegário: dependendo da entonação, significava “estou bem”, “estou péssima”, “pergunte de novo” ou “afaste-se devagar”. Augusto, engenheiro, processava tudo literalmente, como um tradutor automático de primeira geração. O casamento rangia.

A crise maior deu-se numa quarta-feira, quando Helena declarou “faz o que você quiser” e Augusto, júbilo ingênuo, fez o que queria. O silêncio que se seguiu durou três dias e meio e teve a densidade de uma biblioteca fechada. Foi então que Augusto, na sua literalidade salvadora, teve a ideia que literal nenhuma teve antes: comprou um caderno e propôs a Helena que escrevessem, juntos, um glossário conjugal.

Os primeiros verbetes saíram entre risos e algum constrangimento. “Faz o que você quiser”: não faça. “Não precisa me esperar”: espere. “Você está me ouvindo?”: não é pergunta, é alarme. Augusto contribuiu com os dele, que Helena desconhecia solenemente: “hum” (grave): preciso de vinte minutos de silêncio e não é sobre você. “o jogo já vai acabar”: faltam quarenta minutos.

Com o tempo, o caderno engordou e, curiosamente, passou a ser cada vez menos consultado. É que o exercício de escrever os verbetes obrigara cada um a fazer o que nenhum dicionário faz: perguntar ao outro o que você quer dizer quando diz isso?pergunta simples, que casais trocam menos do que trocam acusações. Traduzir, descobriram, não era decifrar; era ter curiosidade pelo original.

Dizem que o caderno existe até hoje, numa gaveta, com o último verbete escrito a quatro mãos: “Te amo”: idem. Moral da fábula, lavrada por esta redação: ninguém nasce fluente em outra pessoa. Ama-se como se aprende idioma, errando a gramática todos os dias, com disposição de corrigir.

Imagine dois rádios sintonizados em frequências vizinhas: ambos emitem som, mas um recebe chiado no lugar da música. Amar não é adivinhar o canal certo para sempre. É ter a humildade de perguntar “o que você quis dizer?” antes de declarar defeito no aparelho alheio.

Amar alguém talvez exija aprender um idioma que não aparece nos dicionários: o modo como o outro nomeia medo, cansaço, saudade ou esperança. Traduzir não é falar por ele, muito menos corrigir cada frase. É perguntar, com paciência, se entendemos direito. O afeto empobrece quando confundimos intimidade com a dispensa de escutar.

Deixe seu comentário erudito

Comentários passam pela moderação da redação antes de aparecer.