Memórias Póstumas de Brás Cubas: o defunto mais vivo da língua portuguesa
Machado de Assis entrega a um morto a tarefa de rir dos vivos, e funda, em 1881, o humor que esta casa pratica até hoje.
Há gente que só se torna humilde depois de perder o emprego, a discussão ou a paciência do grupo da família. Brás Cubas precisou de uma providência mais radical: morreu. (Machado, convenhamos, não economizava no método.) Daí nasce uma história em que a morte não encerra a conversa; arranca-lhe os disfarces.
Confesso, de saída, a suspeição: este é o livro de cabeceira do Duque, o padroeiro oficial da Erudição Cômica, a obra que esta comunidade inteira plagia com orgulho e sem sucesso. Feita a declaração de parcialidade, vamos à resenha, que o próprio Brás Cubas, defunto autor, aprovaria curta e impertinente.
A premissa é um golpe de gênio que a literatura mundial levaria décadas para alcançar: o narrador está morto. Não um fantasma assombrado, um morto desocupado, escrevendo as memórias “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, livre enfim da única coisa que estraga qualquer autobiografia: a necessidade de ficar bem na foto. Brás conta a própria vida medíocre, os amores tortos, a política rasa, a filantropia vaidosa, com a franqueza de quem não tem mais reputação a zelar.
E que prosa, amigos. Capítulos de dez linhas, um capítulo inteiro de reticências, conversas diretas com o leitor (“preencha o leitor este capítulo”), digressões que fingem pedir desculpa pela digressão. Machado inventa ali o que a internet acharia que inventou 140 anos depois: a ironia estrutural, o texto que sabe que é texto. Só que com estilo, e sem precisar de emoji.
Por baixo da graça, a navalha: o retrato de uma elite brasileira que atravessa a vida sem produzir nada além da própria importância. O célebre balanço final, nenhum legado, nenhum ofício, nenhuma transmissão da miséria a criatura alguma, é o soco mais elegante da nossa literatura: o leitor ri até a última página e descobre, fechando o livro, que riu de si.
Veredicto do Duque: leitura obrigatória e reincidente, este é daqueles livros que mudam conforme a idade de quem lê. Aos vinte, acha-se graça; aos quarenta, acha-se espelho. A casa recomenda ambas as experiências, nesta ordem. ❧
Pense naquela pessoa que conta uma derrota como se tivesse planejado a vitória moral desde o começo. Nós conhecemos essa pessoa; em certos dias, somos ela. A grande travessura machadiana é deixar o leitor rir do narrador antes de perceber que também ensaia discursos para absolver a si mesmo.
A liberdade de Brás Cubas tem um detalhe cruel: ele só consegue enxergar as próprias desculpas depois de morto. Nós, os vivos, ainda podemos examiná-las a tempo. Que virtude celebramos em público para ocultar um pequeno interesse privado? Machado não exige que respondamos em voz alta. O desconforto do silêncio já é uma resposta bastante brasileira.
Deixe seu comentário erudito