Kafka e o medo de valer apenas pelo que produz
Gregor Samsa acordou inseto no dia em que deixou de ser útil, e a família percebeu antes dele.
Gregório Samsa acorda transformado e sua primeira preocupação é o trabalho. Parece roteiro absurdo; até lembrarmos de quantas pessoas, doentes, pedem desculpas por não entregar uma planilha. A metamorfose de Kafka tem uma atualização brasileira: a criatura ainda tentaria avisar no grupo da firma.
O detalhe mais aterrador de A Metamorfose não é o homem virar inseto. É o que o homem-inseto pensa primeiro: não “o que houve comigo?”, mas “vou perder o trem”. Transformado em criatura monstruosa, Gregor Samsa agoniza com o horário do expediente, e Kafka, nesse único traço, radiografa um século inteiro: gente que se mede pela própria utilidade, como se fosse eletrodoméstico com certidão de nascimento.
A família Samsa completa o diagnóstico. Enquanto Gregor sustentava a casa, era filho, irmão, orgulho; cessada a produção, vira problema de logística, depois constrangimento, depois “aquilo” no quarto dos fundos. Kafka não inventou vilões, inventou pessoas comuns fazendo a conta que todos fazemos em silêncio: quanto vale alguém que não rende?
O leitor moderno, criatura de métricas, lê a novela como quem se olha num espelho de repartição. Conhece a culpa do domingo improdutivo, o “o que você faz?” como primeira pergunta a estranhos, o currículo infiltrado na alma. Chamamos isso de ética do trabalho; Kafka, menos cerimonioso, chamaria de carapaça, e lembraria que carapaça, na história dele, não protegeu ninguém.
Contra o mal, esta redação prescreve a inutilidade deliberada: ao menos uma hora semanal de atividade rigorosamente improdutiva, caminhar sem pedômetro, ler sem fichamento, conversar sem networking. Não por preguiça, mas por princípio: para lembrar ao próprio sistema nervoso que se existe antes de render, e que ninguém nasceu com meta.
Gregor Samsa não teve essa hora. Valia pelo que produzia e, quando não produziu, não valeu. Que a sua carapaça nos sirva de aviso, e que a pergunta “quem é você?” volte a aceitar respostas que não caibam num crachá.
Suponha que, por um mês, ninguém pudesse dizer sua profissão ao se apresentar. Não haveria “sou diretor”, “sou advogado”, “sou analista”. Restariam gostos, medos, lembranças, gestos. O que começaria a aparecer de você quando o crachá finalmente se calasse?
A pergunta que atravessa Kafka não é apenas se somos úteis, mas quem nos amará quando já não formos. Um mundo que mede pessoas por produtividade transforma descanso em culpa e fragilidade em defeito administrativo. Que nome daríamos ao nosso valor se, durante uma semana, ninguém pudesse consultar nossas entregas, cargos ou resultados?
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