Dostoiévski conhecia esse tipo de pessoa
Ressentimento, orgulho ferido e fome de reconhecimento: o tipo humano que o russo descreveu no século XIX circula hoje, livremente, pela sua lista de contatos.
Há uma discussão que só você sabe que venceu. Aconteceu três dias depois da conversa real, enquanto lavava louça, com argumentos impecáveis e uma plateia imaginária em êxtase. Dostoiévski conhecia esse espetáculo antes de inventarem os comentários da internet.
Há escritores que inventam personagens e há escritores que os flagram. Dostoiévski pertence ao segundo grupo: seus tipos humanos não foram criados, foram detidos em flagrantee o leitor moderno, ao reconhecê-los, sente aquele arrepio de quem encontra um parente no noticiário.
O mais atual deles talvez seja o homem do subsolo: o sujeito que se considera superior a todos e, exatamente por isso, não suporta ser ignorado por ninguém. Ele ensaia conversas que nunca terá, vence discussões imaginárias com adversários que nem sabem de sua existência e coleciona pequenas humilhações como quem junta selos, com método, catálogo e lupa.
O ressentimento, ensina o russo, é uma emoção de longa fermentação. A raiva explode e passa; o ressentimento destila. Ele volta à cena do desgosto todas as noites, reescreve o diálogo, aprimora a resposta que não foi dada. É o único gênero literário em que o autor sempre perde.
O leitor atento já percebeu aonde isto nos leva: as redes sociais são o subsolo com wi-fi. O mesmo orgulho ferido, a mesma sede de reconhecimento, a mesma eloquência dirigida a plateias que não pediram ingresso. Dostoiévski não previu a internet; ele apenas conhecia, com precisão de relojoeiro, o material de que ela seria feita.
A boa notícia é que o diagnóstico já é meio caminho. Quem nomeia o ressentimento deixa de ser personagem dele, e passa, enfim, a ser leitor. Posição, convenhamos, muito mais confortável.
Imagine morar num teatro em que você interpreta acusador, réu e juiz. O ingresso é gratuito; a saída, caríssima. A inteligência do ressentido pode produzir raciocínios brilhantes, mas passa a servir uma única finalidade: convencer o próprio coração de que ninguém o compreendeu.
É fácil rir do homem do subsolo quando o imaginamos como alguém distante. Difícil é reconhecê-lo na resposta espirituosa que ensaiamos durante o banho, na ofensa que relíamos antes de dormir, no prazer secreto de vencer um adversário ausente. O romance não nos pergunta de quem temos raiva, mas quanto de nossa vida estamos dispostos a entregar a essa raiva.
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