WILL SATURNO · Erudição Cômica
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Palavra & Psique

Catastrofização: quando a imaginação promove o pior cenário

O talento humano de transformar um e-mail não respondido em tragédia grega, e o antídoto em dois movimentos.

Uma mensagem diz apenas “precisamos conversar”. Em segundos, sua cabeça produz uma temporada inteira de suspense, com trilha sonora, reviravolta e final trágico. Nem o streaming mais ambicioso trabalha tão depressa.

A mente catastrofista é uma roteirista premiada com um único defeito: só escreve finais trágicos. Dê-lhe um fato banal, o chefe respondeu seco, o exame pediu repetição, o amor demorou a responder, e em quatro cenas ela entrega o apocalipse completo: demissão, doença grave, abandono, e tudo isso, curiosamente, antes do almoço. Chama-se catastrofização: a escada rolante mental que só desce.

O mecanismo tem dois degraus viciados. Primeiro, a confusão entre possível e provável: tudo que a mente aflita imagina é tecnicamente possível, como é possível ganhar na loteria,, mas ela cobra do possível o imposto do certo. Segundo, a subestimação de si: o roteiro catastrófico sempre esquece de incluir, no elenco, a pessoa capaz que você foi em todas as crises anteriores. O filme tem monstro, mas misteriosamente não tem o herói que sobreviveu aos filmes passados.

O antídoto desta casa tem dois movimentos, ambos por escrito, porque a catástrofe adora a penumbra da cabeça e murcha na luz do papel. Movimento um, o tribunal das probabilidades: anote o medo em uma frase (“serei demitido por causa deste e-mail”) e dê-lhe uma nota honesta de 0 a 100 de probabilidade. A aflição grita 95; a caneta, obrigada a justificar, raramente passa de 10. Só o ato de pontuar já rebaixa o monstro a hipótese.

Movimento dois, o plano B de duas linhas: “e se acontecer, eu faço o quê?”, respondido em duas linhas, não em duas horas. “Se for demitido: atualizo o currículo, aviso três contatos, tenho reserva para X meses.” Pronto. A imaginação catastrófica se alimenta do vago; diante de um plano, mesmo modesto, perde o apetite. Não é otimismo, é logística. O otimista nega a tempestade; o preparado compra guarda-chuva e muda de assunto.

Por fim, devolva a roteirista ao cargo certo. Imaginação não foi feita para prever desgraça; foi feita para projetar possibilidade. É a mesma faculdade, apenas apontada para outro lado. Quem aprende a girá-la descobre que o “e se…?” também abre portas: e se der certo? é uma pergunta tão legítima quanto a irmã sombria, e paga dividendos infinitamente melhores.

Pense na mente como alarme de incêndio: foi feita para detectar perigos, não para decidir sozinha se a casa está queimando. Quando o alarme toca, a tarefa é verificar o cômodo. Sentir medo merece respeito; tratá-lo como laudo definitivo pode ampliar o sofrimento.

Imaginar riscos é necessário; tratar toda possibilidade como destino é outra ocupação. O medo veste o futuro de certeza e nos cobra hoje por desastres que não aconteceram. Uma pergunta útil não é “e se tudo der errado?”, mas “que evidência tenho, que alternativas existem e qual gesto prudente cabe agora?”. A lucidez raramente grita.

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