Auto da Compadecida: a esperteza verbal elevada a arte dramática
Ariano Suassuna prova que o Brasil fala difícil do seu próprio jeito, e que João Grilo é o retórico mais eficaz do nosso teatro.
João Grilo entraria num quadro do Porta dos Fundos, bagunçaria o roteiro e sairia com a única pergunta realmente importante: quem pode se dar ao luxo de seguir as regras quando as regras nunca lhe serviram? O Auto da Compadecida ri alto, mas a gargalhada tem consciência social.
Há quem pense que erudição cômica é coisa de salão europeu, monóculo e chá das cinco. Ariano Suassuna responde com um auto nordestino de 1955 em que o personagem mais pobre do sertão vence padre, bispo, cangaceiro e o próprio Diabo, usando exclusivamente a ferramenta desta casa: a palavra bem manejada.
João Grilo não tem dinheiro, não tem força, não tem padrinho. Tem retórica. Cada enrascada da peça é resolvida com um raciocínio torto que, examinado de perto, revela lógica impecável, o sofisma a serviço da sobrevivência. Suassuna, professor erudito que conhecia os clássicos ibéricos de trás para frente, fez a façanha suprema: vestiu a tradição do auto medieval com couro de sertão e gíria de feira, sem que uma coisa desmentisse a outra.
E então vem o julgamento final, quando a peça sobe de divisão. Diante de um tribunal celeste, com o Diabo de promotor, João Grilo faz a defesa mais brasileira da história do teatro: apela. Chama Nossa Senhora, a Compadecida, e argumenta que gente nascida em condição tão adversa merece, no mínimo, um advogado de peso. É teologia popular, é crítica social, é comédia de tribunal, tudo na mesma cena, e funciona porque Suassuna acreditava no que escrevia: a misericórdia como última instância recursal.
Leia-se o texto, veja-se qualquer boa montagem, revisite-se a adaptação que o país inteiro sabe de cor, a ordem é livre, a experiência é cumulativa. O Auto é daquelas obras que melhoram em voz alta: faça o teste de ler um diálogo de João Grilo e Chicó no jantar de família e observe a plateia se formar.
Veredicto do Duque: patrimônio obrigatório. Se esta comunidade tivesse um santo padroeiro no teatro, seria João Grilo, o homem que provou que, no Brasil, falar bem não é luxo: é equipamento de sobrevivência. ❧
Lembre da cena cotidiana: um rico chama de “negociação inteligente” aquilo que, feito por um pobre, ganharia o carimbo de “jeitinho”. A palavra muda de roupa conforme o bolso de quem a veste. Ariano nos faz perceber isso sem subir num palanque; basta sentar conosco à mesa e contar um caso.
João Grilo nos deixa uma pergunta que o riso não dissolve: por que chamamos de malandragem a inteligência do pobre e de estratégia a esperteza do poderoso? A peça não canoniza a mentira; obriga-nos a olhar para as condições em que cada personagem aprende a sobreviver. Talvez a verdadeira erudição comece quando sabemos rir de João e, depois, perguntar quem escreveu as regras do jogo.
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