Sesquipedal: a palavra que mede palavras
Do latim sesquipedalis, "de um pé e meio de comprimento". Horácio já zombava das sesquipedalia verbae nós, dois mil anos depois, continuamos fornecendo exemplos.
Sesquipedal parece nome de criatura que apareceria no Castelo Rá-Tim-Bum para cobrar uma taxa por sílaba. Não é monstro: é adjetivo. Mas a palavra já oferece uma boa lição, pois consegue ser ao mesmo tempo longa e uma piada sobre palavras longas.
sesquipedaladjetivo de dois gêneros. 1. Que tem um pé e meio de comprimento. 2. Diz-se da palavra desnecessariamente longa. 3. Por extensão jocosa: diz-se de quem emprega tais palavras com visível deleite e nenhuma necessidade.
A genealogia é ilustre. Horácio, na Arte Poética, recomendava aos poetas que evitassem as sesquipedalia verbaas palavras de um pé e meio,, prova de que o falador difícil já incomodava gente de bem antes de Cristo. O vocábulo atravessou os séculos exatamente como vive: comprido, pomposo e rindo de si mesmo, pois sesquipedal é, ela própria, uma palavra sesquipedal. Caso raro de autofagia lexical.
Emprego recomendado. No trânsito: “O nobre condutor da caminhonete manifesta-se de modo sesquipedal pela buzina.” Na repartição: “O parecer era tão sesquipedal que o incêndio terminou antes da leitura.” Em família: “Tio Edmilson, após o terceiro espumante, torna-se irreversivelmente sesquipedal.”
Como usar sem virar o alvo. A regra da casa é simples: a palavra rara entra na frase como o sal no feijão, para realçar, jamais para soterrar. Empregue-a uma vez, com naturalidade, e deixe que a plateia corra ao dicionário. Quem a usa três vezes no mesmo parágrafo não é erudito: é reincidente.
Parentes próximos: prolixo, palavroso, grandiloquente, bombástico. Antídoto certificado: lacônico. Grau máximo da espécie, em registro de chacota: hemidemissemiquaver de cartório, mas isso já é assunto para outro verbete.
Teste com delicadeza: diga “prolixo” a alguém que fala demais e talvez receba um olhar severo; diga “sesquipedal” e terá de explicar a acusação. Eis a ironia: uma palavra criada para apontar exageros pode se tornar exagero se usada apenas para impressionar.
A melhor vingança contra a palavra comprida não é proibi-la, mas fazê-la trabalhar. “Sesquipedal” pode produzir encanto quando revela uma ideia; vira caricatura quando tenta disfarçar a falta dela. O vocábulo culto não deve cobrar ingresso de quem lê. Sua verdadeira elegância está em abrir uma porta, não em exibir a fechadura.
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