O escritório onde todos falavam difícil
Uma fábula corporativa sobre a diferença, frequentemente ignorada, entre a palavra certa e a palavra comprida.
Na firma de seu Anselmo, uma simples dúvida sobre o ar-condicionado exigia memorando, três assinaturas e uma expressão em latim. O escritório parecia saída de um Castelo Rá-Tim-Bum burocrático: cada porta abria outra porta, e nenhuma levava à solução.
A circular nº 47 da Diretoria chegou numa segunda-feira e instituía, com efeito imediato, a Elevação Vocabular Compulsória. Doravante, nenhum colaborador se expressaria com menos de quatro sílabas por palavra, sob pena de advertência e, na reincidência, de curso de oratória aos sábados.
Os primeiros dias foram de entusiasmo. O cafezinho virou pausa para infusão estimulante. O grampeador, dispositivo de coesão documental. O Almeida, do financeiro, pediu aumento alegando defasagem remuneratória incompatível com sua pujança laboral, e a frase era tão bonita que o diretor aprovou sem ler os números.
Os problemas vieram na quinta-feira, quando o alarme soou e o chefe da segurança anunciou, ao microfone, um evento calorífico não programado no pavimento térreo, demandando evacuação ordeira e tempestiva. Os funcionários, encantados, aplaudiram o anúncio. Ninguém saiu do lugar. A fumaça, que não lera a circular, subia pelas escadas com vocabulário nenhum.
Foi Clarice, a estagiária, quem subiu numa cadeira e gritou a palavra proibida, monossilábica, vulgaríssima: FOGO!e o prédio se esvaziou em quatro minutos, estabelecendo recorde regional de evacuação ordeira e tempestiva.
No inquérito que se seguiu, Clarice foi advertida por infração à circular nº 47 e, no mesmo ato, promovida por salvar duzentas e doze vidas. A diretoria, salomônica, emendou o texto: a eloquência continuava obrigatória, exceto em caso de incêndio, naufrágio ou rodízio de pizza.
Moral da história, lavrada em ata: a palavra rara é tempero, não prato principal. Quem fala difícil o tempo todo não é erudito, é sesquipedal. E disso, como se sabe, até o dicionário ri.
No dia em que faltou luz, o vocabulário pomposo revelou sua utilidade exata: nenhuma. A funcionária que disse “a escada fica à esquerda” salvou mais tempo que todas as circulares do mês. Não foi a erudição que falhou. Foi a vaidade que se disfarçava dela.
Clarice descobriu uma verdade que a diretoria inteira ignorava: a linguagem existe para que as pessoas compreendam o mundo a tempo de agir nele. A erudição que precisa sacrificar a compreensão para provar sua grandeza já não é conhecimento; é fantasia de superioridade. E, em caso de incêndio, a melhor palavra continua sendo a que salva.
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