Por que falar bonito virou ato de rebeldia
Numa internet de monossílabos e figurinhas, caprichar no vocabulário deixou de ser pedantismo e virou insubordinação, da mais fina estirpe.
Imagine o professor Pasquale entrando no grupo da família e enviando uma palavra que ninguém conhece. Em cinco minutos alguém pergunta se é vírus, outro responde com figurinha, e a tia recomenda chá. A palavra rara, coitada, nem teve tempo de se apresentar.
Houve um tempo em que o rebelde rasgava a etiqueta, chegava atrasado ao baile e fumava onde não devia. Os tempos mudaram. Hoje, no grande salão digital em que a humanidade conversa aos gritos de três letras, mds, pfv, vdd,, o gesto verdadeiramente transgressor é outro: terminar uma frase. Com sujeito, verbo e, pasmem, predicado.
Não se trata de saudosismo, esse vício de quem acha que o mundo acabou quando a caneta-tinteiro saiu de moda. Trata-se de aritmética: a economia da atenção paga melhor a mensagem mais curta e o estímulo mais rápido, e o vocabulário, coitado, vai se desgastando por atrito, como pedra de rio. Sobra o cascalho. Afunda o que tinha peso.
Nesse cenário, falar bonito deixou de ser adorno e passou a ser resistência. Quem escolhe a palavra exata, melancolia em vez de bad, perplexo em vez de passado, desídia em vez de preguicinhaestá, sem estandarte nem barricada, recusando o rebaixamento geral da conversa. É uma rebeldia de paletó: silenciosa, elegante e devidamente conjugada.
Convém, porém, desfazer um mal-entendido que ronda esta redação: falar bonito não é falar difícil. O sesquipedal de repartição, que profere outrossim para pedir um cafezinho, não é rebelde, é apenas cansativo, e merece nossa compaixão. A palavra rara só tem graça quando ilumina; quando apenas enfeita, vira lustre em casa sem energia elétrica.
A boa eloquência, no fundo, é uma forma de hospitalidade. Quem fala com esmero está dizendo ao ouvinte: a sua atenção me é cara, e eu não a desperdiçarei com qualquer coisa. Os clássicos já sabiam disso, a palavra certa, no lugar certo, na hora certa, vale mais que um discurso inteiro de palavras aproximadas.
É por isso que esta comunidade existe. A pessoa chega pelo riso, diverte-se com uma expressão inesperadamente pomposa, e quando percebe está lendo Machado, desconfiando de Dostoiévski e discutindo Caravaggio no grupo da família. A piada foi só a porta. O universo estava atrás dela.
Portanto, caro leitor, rebele-se. Use a palavra bonita no mercado, no elevador, na reunião. Pode ser que estranhem. É sinal de que está funcionando.
Erudição não é falar de cima de uma escada; é construir degraus para que os outros possam subir. Explique uma ideia difícil com a mesma paciência com que ensinaria a um amigo o segredo de uma receita. A inteligência que só impressiona termina sozinha à mesa.
Falar bonito só é rebeldia quando a beleza serve à clareza, não à humilhação de quem não conhece a palavra. O erudito verdadeiro amplia a mesa; o pedante pede documento na porta. Se o nosso vocabulário não consegue explicar, acolher e fazer rir, talvez faltem menos palavras raras e mais generosidade intelectual.
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