Um poema para quem precisa reaprender a parar
Pequeno intervalo poético para uma internet que não sabe parar, leia devagar, de preferência sentado.
Paro.
A frase estranha o ponto,
o dia estranha a pausa,
o mundo segue aos gritos lá fora
convencido de que pressa é causa.
Às vezes a vida abre vinte abas
e cobra resposta em todas.
Fecho uma, respiro (veja só),
o mundo não desaba no intervalo.
Reaprendo o ofício antigo:
não fazer, e estar inteiro nisso;
olhar a tarde sem cobrar-lhe meta,
deixar o pensamento sem serviço.
Descubro que o descanso tem sotaque,
que o tédio, bem servido, vira fonte,
e que ninguém jamais, em leito último,
pediu para conferir mais um e-mail no horizonte.
Paro. E no silêncio que se forma,
ouço enfim o que a pressa interrompia:
eu mesmo, à minha espera, perguntando
por onde é que eu andava o dia inteiro
se a vida era aqui, e era hoje, e era agora, e era a companhia.
O relógio me chama improdutivo;
respondo com a janela aberta.
Há coisas que só crescem
quando ninguém as apressa.
O mundo não deixará de girar porque você descansou uma tarde; esta é uma notícia que o orgulho recebe como ofensa. Parar não é desistir de viver intensamente, mas recusar que a intensidade seja medida apenas pelo cansaço. Talvez o tempo mais bem empregado seja, em certos dias, aquele que não produz prova de produtividade.
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