O homem que colecionava palavras esquecidas
Um conto breve sobre memória, linguagem e aquilo que morre quando deixa de ser pronunciado.
Anacleto guardava palavras como quem, nos anos 2000, guardava CDs riscados porque cada faixa tinha uma história. Ninguém precisava daqueles discos para escutar música; ele precisava deles para lembrar quem havia sido ao ouvi-la. Seu jarro de vocábulos funcionava do mesmo modo.
O senhor Anacleto não colecionava selos, moedas ou mágoas, como os aposentados comuns. Colecionava palavras em via de extinção. Mantinha-as num jarro de vidro sobre a cristaleira, escritas a lápis em tirinhas de papel: janota, basbaque, faceiro, alcovitar, chorumela. Quando encontrava uma palavra agonizante, num livro amarelado, na boca de um velho, no fundo de um dicionário,, recolhia-a com o cuidado de quem resgata um filhote da chuva.
A vizinhança achava graça e achava pena, na proporção habitual. “Palavra não morre, seu Anacleto”, dizia o rapaz do mercado. “Morre, sim senhor”, respondia ele, solene. “Morre quando passa um tempo grande demais sem ninguém precisar dela. E com ela morre o jeito de ver que ela carregava, porque ninguém repara direito no que não sabe nomear.” O rapaz não entendia, mas anotava mentalmente a palavra “solene”, que também andava magra.
Com o tempo, Anacleto instituiu um rito: todo dia soltava uma palavra do jarro. Escolhia uma tirinha, decorava o verbete e saía pelo bairro à procura de uma frase onde encaixá-la com naturalidade, na padaria, elogiava a baguete sobremodo estaladiça; no ponto de ônibus, declarava-se enfastiado da espera. As pessoas estranhavam, sorriam, às vezes perguntavam o significado. Era tudo o que ele queria: pergunta é respiração boca a boca.
Dizem que no fim da vida, já esquecido de muita coisa, do caminho da farmácia, do nome dos netos em dias nublados,, Anacleto conservava intactas as palavras do jarro, como se a memória, obrigada a despejar cômodos, tivesse escolhido guardar justamente o enxoval mais antigo. A última que pronunciou, garantem, foi alvorecer. Ninguém na sala soube se era verbete ou notícia.
O jarro ficou para a bisneta, que o mantém na mesma cristaleira e solta, ela também, uma palavra por dia, agora pela internet, para alguns milhares de basbaques faceiros. Moral do conto, lavrada por esta casa: dicionário não é cemitério; é arca. E toda palavra dita a tempo é um bicho que desembarca vivo.
Ao ensinar uma palavra antiga para uma criança, Anacleto descobriu que o tesouro não estava no termo raro, mas no instante em que outra pessoa o pronunciava pela primeira vez. Conhecimento guardado é acervo; conhecimento partilhado é acontecimento.
Uma palavra esquecida não é necessariamente uma ideia morta. Às vezes ela preserva uma delicadeza que nossa pressa deixou de praticar. Mas recuperar vocábulos não deve ser um concurso de superioridade: de que adianta ter um repertório raro se falta linguagem para consolar alguém? A palavra só volta a viver quando encontra uma pessoa.
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