WILL SATURNO · Erudição Cômica
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Cinema Erudito

Antes do Amanhecer: quando a conversa é o enredo

O filme de Richard Linklater em que nada acontece, exceto a coisa mais difícil de filmar: duas pessoas se conhecendo.

Dois desconhecidos se encontram num trem e o cinema faz algo ousado: dispensa a explosão, o vilão e a perseguição. Aposte nisso numa reunião de roteiristas obcecada por cliques e alguém perguntará onde está o “plot twist”. A reviravolta, aqui, é a conversa.

O cinema de ação filma explosões; o de suspense, perseguições; o de Richard Linklater, em Antes do Amanhecer, filma a façanha mais arriscada de todas: uma conversa que dura a noite inteira. Dois desconhecidos, um trem, uma cidade europeia e nenhum roteiro de acontecimentos, apenas o acontecimento de duas pessoas decidindo, frase a frase, se cabem uma na outra.

A ousadia técnica é esta: o diálogo não acompanha a história; o diálogo é a história. Cada assunto puxado é um lance de xadrez afetivo, cada confissão é uma aposta, cada silêncio entre os dois tem a tensão que outros filmes reservam ao desarme de bombas. Quem já flertou de verdade reconhece a precisão: a conversa boa é exatamente isso, um enredo que os dois escrevem sem saber o final.

Repare-se no cenário escolhido: eles caminham. Andar e falar, a tecnologia amorosa mais antiga da humanidade, hoje em desuso por concorrência desleal das telas. A caminhada resolve o problema que mata as conversas sentadas: o excesso de olhar frontal, que vira interrogatório. Lado a lado, olhando o mesmo mundo, fala-se o que de frente não sai.

Há ainda a lição da escassez: os dois têm uma noite, e sabem. O prazo, que deveria estragar tudo, aperfeiçoa tudo, ninguém desperdiça uma frase quando as frases são contadas. É o oposto exato da conversa infinita dos aplicativos, que por não acabar nunca, nunca precisa ficar boa.

A prescrição desta Sessão Erudita, portanto, é dupla. Aos cinéfilos: vejam o filme, de preferência acompanhados. Aos enamorados: roubem o método, um passeio a pé, telefones no bolso, destino nenhum e uma pergunta de verdade para abrir os trabalhos. O amanhecer, garante Linklater, é mero detalhe de iluminação.

Há encontros como aquelas viagens de ônibus da adolescência, quando a janela escurecia e alguém contava uma história que nunca teria coragem de dizer de dia. O que nos aproxima não é a garantia de futuro; às vezes é a breve liberdade de existir sem currículo.

Há encontros que não mudam o mundo, mas corrigem a escala em que o enxergamos. O filme pergunta, sem jamais formular um questionário: quantas possibilidades passamos ao lado porque exigimos garantia antes da primeira conversa? O acaso não substitui compromisso; lembra apenas que a vida não entrega sinopse antes de começar.

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