Ode à escuta inteira
Peça em louvor da arte quase extinta de ouvir alguém até o fim, sem ensaiar a resposta no meio.
Havia uma espécie de silêncio nas tardes de TV Cultura: antes de um personagem explicar o mundo, a cena permitia que a curiosidade respirasse. Hoje interrompemos até um áudio de quinze segundos para preparar a resposta. O ouvido ficou veloz; a atenção, nem sempre.
Ouvir não é ficar calado;
isso a parede já faz, e com mais pompa.
Ouvir é emprestar o próprio silêncio
sem cobrar juros de opinião.
Há quem escute como quem espera
a brecha para entrar com o seu caso,
colecionador de deixas, caçador de pausas,
ouvido presente, atenção no atraso.
Mas há a escuta rara, a escuta inteira:
a que não termina a frase alheia,
não conserta, não compara, não se adianta;
apenas fica, e ficar é o que acalanta.
Que me ensinem essa arte sem diploma:
ouvir alguém até o ponto final,
e só então, com a licença do silêncio,
responder ao que foi dito,
não ao que eu queria ter escutado.
Pense na diferença entre espelho e janela. Um espelho devolve a nossa própria imagem, por mais interessante que seja a história contada do outro lado. Uma janela permite observar outro mundo. Escutar bem é resistir à tentação de transformar toda narrativa alheia em autobiografia.
Escutar não é aguardar educadamente a própria vez de falar. É tolerar que o mundo do outro nos interrompa e, por um instante, desorganize nossas certezas. Na próxima conversa, faça um exercício quase revolucionário: não transforme a dor alheia em exemplo de sua experiência. Deixe que a história seja de quem a viveu.
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